Como Determinar o TRRF (Tempo Requerido de Resistência ao Fogo) em Projetos Estruturais de Concreto e Aço

IT-08 | NBR 14323 | Estruturas de Aço | NBR 15200 | Estruturas de Concreto Armado | TRRF | Tabela de Referência | Classificação de Ocupação de Uso | ISO 834 | Curva de Incêndio

Matheus Rowlands

6/25/20264 min read

No escopo do dimensionamento estrutural, prever o comportamento dos materiais sob condições normais de carregamento (peso próprio, sobrecargas e vento) é apenas metade do trabalho. A verdadeira prova de fogo de um projeto — literal e figurativamente — ocorre quando a estrutura é submetida a um estresse térmico extremo originado por um incêndio.

Para garantir a estabilidade estrutural e assegurar que o edifício não entre em colapso antes da total evacuação dos ocupantes e do combate pelas equipes de resgate, a engenharia utiliza o conceito do TRRF (Tempo Requerido de Resistência ao Fogo).

Determinar o TRRF de forma equivocada gera dois cenários catastróficos no canteiro: o subdimensionamento (que coloca vidas em risco e reprova a obra no Corpo de Bombeiros) ou o superdimensionamento (que inflaciona drasticamente os custos com materiais de proteção passiva). A seguir, entenda o passo a passo normativo para fixar esse parâmetro corretamente.

O que é o TRRF e onde ele está balizado?

O TRRF é o período mínimo (geralmente expresso em intervalos de 30, 60, 90 ou 120 minutos) em que uma estrutura deve manter sua capacidade portante quando exposta à Curva de Incêndio Padrão (ISO 834).

No Brasil, os critérios gerais para a determinação desse tempo são regidos pela NBR 14432 (Exigências de resistência ao fogo de elementos de construção de edificações), além de tabelas específicas presentes nas Instruções Técnicas dos Corpos de Bombeiros estaduais (como a IT-08 em São Paulo).

O Passo a Passo para Determinar o TRRF da Edificação

Para extrair o TRRF exato das tabelas normativas, o engenheiro calculista ou de execução precisa cruzar três variáveis fundamentais do projeto: Ocupação (Uso), Altura da Edificação e Carga de Incêndio.

Passo 1: Classificar o Grupo de Ocupação e Uso

O risco à vida varia de acordo com o que acontece dentro do prédio. Um hospital (onde os ocupantes têm mobilidade reduzida) exige critérios muito mais rígidos do que um galpão industrial automatizado. A norma divide as edificações em grupos (A a M) e divisões.

Passo 2: Medir a Altura da Edificação para Fins de Segurança

A altura estrutural define a complexidade de evacuação vertical e o alcance das escadas mecânicas dos bombeiros. Geralmente, as normas classificam as alturas em faixas de risco (Exemplo prático baseado na IT-08/SP):

  • Tipo I: Edificações térreas (risco menor).

  • Tipo II: Edificações com altura menor ou igual a 12 metros.

  • Tipo III: Edificações com altura entre 12m e 23m

  • Tipo IV: Edificações com altura entre 23m e 54m

  • Tipo V: Edificações com altura maior que 54m (alto risco vertical)

Passo 3: Cruzar os Dados na Tabela Normativa

Ao cruzar a Ocupação com o Tipo de Altura, a tabela fornece o TRRF obrigatório para os elementos estruturais principais (vigas, pilares e paredes de contraventamento).

Tabela de Referência de TRRF

Abaixo, apresentamos uma simplificação das exigências típicas encontradas nas tabelas de TRRF para elementos estruturais principais, demonstrando como o tempo escala conforme a altura e o uso:

Atenção Engenheiro: Existem isenções e reduções de TRRF permitidas por norma (como o método do tempo equivalente ou a presença de chuveiros automáticos/sprinklers), desde que validadas por cálculo analítico rigoroso de engenharia de incêndio.

As Peculiaridades do TRRF: Aço vs. Concreto

Uma vez determinado que a sua obra exige, por exemplo, um TRRF de 90 minutos, a estratégia de dimensionamento mecânico mudará radicalmente dependendo do material estrutural:

1. Estruturas de Concreto Armado (Foco na NBR 15200)

O concreto possui uma condutibilidade térmica relativamente baixa, o que o torna um bom isolante natural. No entanto, ele perde resistência à medida que o calor avança para o interior da seção.

  • O Critério Técnico: O dimensionamento ao fogo em concreto baseia-se na distância do eixo da armadura até a face exposta ao calor (cobrimento nominal, c_1) e na largura mínima da seção transversal do elemento (b_m).

  • Se o cobrimento de projeto for insuficiente para isolar a armadura contra a temperatura crítica de escoamento do aço (aprox. 500°C), a estrutura precisará de argamassa de revestimento complementar para compensar a espessura.

2. Estruturas de Aço (Foco na NBR 14323)

O aço estrutural possui alta condutibilidade térmica e baixa capacidade térmica volumétrica. Isso significa que, quando exposto ao fogo, um perfil metálico atinge sua temperatura crítica (onde perde cerca de 40% a 50% de sua resistência mecânica) em pouquíssimos minutos.

  • O Critério Técnico: Praticamente toda estrutura de aço com exigência de TRRF igual ou superior a 30 minutos necessitará obrigatoriamente de um sistema de proteção passiva complementar.

  • Aqui entra o cálculo do Fator de Forma (P / A) para definir se a melhor estratégia financeira para atingir os minutos exigidos será a aplicação de pintura intumescente (camadas finas reativas) ou argamassa projetada de densidade controlada (barreira física por amorfia térmica).

Conclusão

Determinar o TRRF é o primeiro e mais importante passo da engenharia de segurança contra incêndio. Ele dita as regras do jogo para o projetista estrutural e baliza os custos de revestimentos técnicos do engenheiro residente. Ignorar as nuances entre a NBR 14432, a NBR 15200 e a NBR 14323 transforma a etapa de aprovação do AVCB em uma roleta russa financeira.

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